quem ama o feio
bonito lhe
parece
Professora
Dr. Ana Mae Barbosa
As reações do Nazismo, do
Socialismo Soviético e do Regionalismo Americano contra as
vanguardas artísticas buscaram reinstalar a grandiosidade da
Arte. A vanguarda modernista dos anos 20 desempenhou o papel de
crítica social do mesmo modo que o Pós-Modernismo
pensou politicamente quando tentou instalar a antiestética,
mas na realidade instalou uma radical abertura em que tudo é
possível como Arte.
Não se pergunta mais
“isto é Arte?”, porém
“quando isto é
Arte?”. O contexto passou a ser mais
definidor da Arte que a própria
forma.
Como a Arte era apresentada como o lugar
supremo da Beleza, o pedestal da Beleza, ao recusarem a Beleza os
artistas a libertaram de normas
específicas.
Livre, ela começou a deambular
atraindo nosso olhar para muito além da Arte, para o mundo
que nos acalenta, para o cotidiano, para a cultura visual que nos
cerca, para as pequenas coisas visíveis apenas a olhares
penetrantes.
A chamada estética do
cotidiano nos faz reconhecer
Beleza
-
no modo como são arranjadas frutas na
barraca de feira, no modo como um vendedor de balas dá
realce à sua banca pintando-a;
-
no modo como se vestem as pessoas do povo nas
ruas, nas vitrines e nas roupas das passarelas da
moda;
-
ou no modo como as pessoas arranjam suas
casas;
Há uma tendência
inelutável dos organismos sadios para se cercarem de Beleza
e nos organismos doentes a clamar por Beleza em busca da
saúde mental.
Beleza faz parte da qualidade de vida e
é fácil de reconhecer, embora seja relativa.
Não requer treinamento para ser percebida, mas depende do
tempo em que vive o apreciador e de seus
valores.
Uma casa muito pobre, feita de taipa e com o
telhado de palha, pode ter ao redor flores em canteiros bem
coordenados de cores diferentes plantadas ali por seus moradores
para acrescentar qualidade de vida, prazer aos seus
olhos.
Onde falta tudo pode não faltar o
preenchimento do desejo estético.
Mas esse preenchimento estético pode
se revelar num vaso de flores de plástico no centro da mesa,
que para mim é feio, mas está ali porque é
belo para os moradores daquela casa.
Somos todos naturais produtores e
consumidores de Beleza, embora nem todos sejamos artistas. Ser
artista é um conceito conferido pela comunidade
crítica e depende de DNA, meio social e
desejo.
O dito popular “quem ama o feio
bonito lhe parece” é muito acertado e volta a
confundir o belo com o
bom.
Uma pintura de Ghirlandaio (c.1480),
O
velho e seu neto, ilustra esse dito popular. Um velho
muito feio é embelezado pelo olhar fascinado e cheio de amor
de seu neto. A experiência da criança com seu
avô embeleza seu ato de perceber.

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