Bonito lhe parece?  (Pensamentos) escrito em sábado 24 maio 2008 00:39

beleza, ghirlandaio, modernismo, vanguardas

quem ama o feio bonito lhe parece     

Professora Dr. Ana Mae Barbosa

As reações do Nazismo, do Socialismo Soviético e do Regionalismo Americano contra as vanguardas artísticas buscaram reinstalar a grandiosidade da Arte. A vanguarda modernista dos anos 20 desempenhou o papel de crítica social do mesmo modo que o Pós-Modernismo pensou politicamente quando tentou instalar a antiestética, mas na realidade instalou uma radical abertura em que tudo é possível como Arte.

Não se pergunta mais “isto é Arte?”, porém “quando isto é Arte?”. O contexto passou a ser mais definidor da Arte que a própria forma.

Como a Arte era apresentada como o lugar supremo da Beleza, o pedestal da Beleza, ao recusarem a Beleza os artistas a libertaram de normas específicas.

Livre, ela começou a deambular atraindo nosso olhar para muito além da Arte, para o mundo que nos acalenta, para o cotidiano, para a cultura visual que nos cerca, para as pequenas coisas visíveis apenas a olhares penetrantes.

A chamada estética do cotidiano nos faz reconhecer Beleza

  • no modo como são arranjadas frutas na barraca de feira, no modo como um vendedor de balas dá realce à sua banca pintando-a;
  • no modo como se vestem as pessoas do povo nas ruas, nas vitrines e nas roupas das passarelas da moda;
  • ou no modo como as pessoas arranjam suas casas;
    Há uma tendência inelutável dos organismos sadios para se cercarem de Beleza e nos organismos doentes a clamar por Beleza em busca da saúde mental.

Beleza faz parte da qualidade de vida e é fácil de reconhecer, embora seja relativa. Não requer treinamento para ser percebida, mas depende do tempo em que vive o apreciador e de seus valores.

Uma casa muito pobre, feita de taipa e com o telhado de palha, pode ter ao redor flores em canteiros bem coordenados de cores diferentes plantadas ali por seus moradores para acrescentar qualidade de vida, prazer aos seus olhos.

Onde falta tudo pode não faltar o preenchimento do desejo estético.

Mas esse preenchimento estético pode se revelar num vaso de flores de plástico no centro da mesa, que para mim é feio, mas está ali porque é belo para os moradores daquela casa.

Somos todos naturais produtores e consumidores de Beleza, embora nem todos sejamos artistas. Ser artista é um conceito conferido pela comunidade crítica e depende de DNA, meio social e desejo.

O dito popular “quem ama o feio bonito lhe parece” é muito acertado e volta a confundir o belo com o bom.

Uma pintura de Ghirlandaio (c.1480), O velho e seu neto, ilustra esse dito popular. Um velho muito feio é embelezado pelo olhar fascinado e cheio de amor de seu neto. A experiência da criança com seu avô embeleza seu ato de perceber.

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